Festivais e celebrações na cultura do Irã

 

Salam amigos! Para entendermos melhor a cultura do Irã, devemos conhecer quais são os festivais e celebrações que fazem parte da vida do povo iraniano há milênios.

A maioria dos festivais na cultura iraniana, tem origem nos rituais da antiga religião zoroastriana, ou seja, eles eram observados antes da era islâmica no Irã. Atualmente, iranianos de diferentes crenças também celebram estes festivais como uma forma de manter viva a riqueza de sua cultura ancestral.

Para sabermos as datas em que são comemorados esses festivais da cultura persa, deve-se ter como base o calendário iranianoum calendário solar utilizado no Irã desde 1925, no Afeganistão desde 1957 e em alguns países da Ásia Central e regiões do Curdistão. As celebrações islâmicas no Irã, seguem o calendário islâmico lunar, assim como os demais países islâmicos.

Vamos começar pela maior e mais importante celebração da cultura iraniana, que é  Noruz, o Ano Novo persa e outras celebrações ligadas a ele:

Noruz: Ano Novo persa

Data: 1º de Farvardin (20 ou 21 de março)
 

 

O Ano Novo no calendário iraniano, cai no início da primavera no hemisfério norte (equinócio de primavera). Em persa, o ano novo é chamado de Noruz, que é a junção das palavras no, que significa “novo” e ruz, que significa dia. Então, para os iranianos, celebrar o ano novo é como começar um “novo dia” ou nova vida, pois a primavera traz a renovação da vida.

As comemorações do Noruz duram 12 dias, e como costume as famílias se reúnem, se visitam e trocam presentes. Há muitas outras tradições e rituais que fazem parte desta época, incluindo o khane tekani (faxina da casa um mês antes), compras de ano novo, preparar comidas típicas e a montagem da Haft Sin (mesa com espelho, velas, aquário com peixe, ovos coloridos e 7 itens simbólicos que começam com a letra persa /sin/ س  simbolizando saúde, amor, prosperidade, etc).

No Noruz, também há personagens folclóricos que são representados por pessoas com trajes especiais ou bonecos que enfeitam as ruas, como o Haji Firuz (palhacinho de roupas vermelhas e rosto negro que canta, dança e toca tamborim), o Amu Noruz , velhinho de barbas brancas e roupas verdes que traz presentes para as crianças, que representa a chegada da primavera e a Naneh Sarma, a velhinha de tranças brancas, que representa o inverno (em diferentes tradições ela é a mãe ou esposa do Amu Noruz).

No Irã, o Noruz é um feriado nacional e também é comemorado em outros países como Afeganistão, Azerbaijão, Tadjiquistão e outros países da Ásia Central e é considerado um dos Patrimônios da Humanidade pela Unesco.

 

Sizdah Bedar: 13º dia do ano novo persa

Data: 13º de Farvardin (2 ou 3 de abril)
 

 

O 13° dia do Ano Novo persa, marca  o fim das férias escolares para as crianças e a volta ao trabalho para os adultos. Neste dia as famílias deixam suas casas e fazem passeios ao ar livre, jogos e piquenique nos parques ou nas montanhas em harmonia com uma nova estação que se inicia.

Esta tradição é chamada Sizdah Bedar, que pode ser traduzida como “dia 13 fora de casa” (sizdah significa 13 que na cultura persa também é número de azar). Este divertido passeio envolve todos os membros da família e destina-se a encerrar a as comemorações do Noruz de forma positiva e relaxante. 

O Sizdah Bedar é uma combinação de vários rituais que remontam a era pré-islâmica. Esta data, no calendário zoroastriano era devotada ao deus Tishtrya (Tir), o guardião das chuvas. Outros rituais que fazem parte desta data são, jogar fora o sabzi (matinho verde da mesa Haft Sin) e para as moças solteiras, dar um nó em uma folha de grama para conseguir um bom casamento.

 

Chahârshanbe Suri: última quarta-feira do ano

Data: última quarta-feira antes do Noruz 
 

 

 
Na véspera da última quarta-feira antes do Noruz, é celebrada a Chahârshanbeh Suri, que significa “quarta-feira vermelha”. Esta data simboliza a vitória da luz contra as trevas (do bem contra o mal) e remonta a um ritual celebrado pelos persas há  mais de 2500 anos oriundo dos ancestrais zoroastrianos.
À meia-noite as pessoas saem pelas ruas e fazem grandes piras, saltam sobre fogueiras ou brincam com fogos de artifício cantando a canção tradicional: Zard-ye man az to, sorkh-ye to az man, que pode ser traduzida como “Minha cor amarela para você, sua cor vermelha para mim” isto é um pedido para que toda as doenças (cor amarela, palidez) sejam tomadas pelo fogo e devolvidas como saúde e força (cor vermelha).
Um outro ritual bem curioso desta data lembra o Halloween. De acordo com a tradição, nos últimos dias do ano, os vivos são visitados pelos espíritos de seus ancestrais e muitas crianças saem vestidas como fantasminhas simbolizando esses ancestrais, batendo em panelas com colheres e pedindo agradinhos de porta em porta.

 

Outros festivais importantes da cultura persa, não são feriados, mas têm ligação com os ciclos da natureza e das estações do ano. Estes festivais são sagrados para a minoria religiosa de zoroastrianos que vive no Irã atual, mas também são celebrados  por iranianos de outras crenças:

Khordadgân: festival das águas

Data: 6º de Khordâd (26 ou 27 de maio)
 

 

O Khordâdgân, é um festival de origem zoroastriana que lembra a importância de honrar e lembrar a importância do elemento água para a manutenção da vida.
Khordâd tem origem na palavra Hauvrtat que significa “saúde e bem-estar” no antigo persa, é o nome  de um anjos guardiães da tradição zoroastriana, que é representada como uma divindade feminina que protege as águas dos rios e dos mares.
O lírio branco, especialmente o que cresce no norte do Irã, é a flor símbolo da celebração de Khordadgân, que acredita-se ter o “cheiro da amizade”. Tradicionalmente os iranianos celebram este festival, perto de fontes de água, rios ou lagos.

 

Tirgân: festival das chuvas 

Data: 13º de Tir ( 2, 3 ou 4 de agosto)
 

 

O Tirgân ou “Festival da Chuva” também é uma das tradições do zoroastrismo, que ainda hoje é revivida pelo povo iraniano. O nome do festival vem do arcanjo, Tir o guardião das tempestades e trovões que trazem as chuvas tão necessárias que aumentam a colheita e evitam a seca durante o verão árido do Irã.
Há também uma outra lenda que associa a celebração de Tirgân ao herói persa Arash, que subiu ao topo do monte Damavand e disparou sua flecha encerrando a disputa territorial entre os reinos do Irã e Turan, e trazendo a chuva.
As celebrações de Tirgan têm diversos costumes e tradições que variam de acordo com cada região do Irã. Entre estes costumes  podemos citar: brincadeiras de jogar água para desejar um ano abençoado pelas chuvas, adivinhar a sorte através de objetos tirados de dentro de um jarro, e amarrar uma fita colorida no pulso dez dias antes fazendo um pedido e soltá-la ao vento.

 

Mehregân: festival de outono 

Data: 10º de Mehr (1 ou 2 de outubro)
 

 

Mehregân é uma festividade persa zoroastriana celebrada  em honra à Mehr, também conhecida como Mitra, divindade guardiã da amizade, afeição e amor. Esta comemoração também marca o início do outono. A data corresponde ao dia das colheitas no qual os agricultores agradeciam a Deus pela dádiva do alimento que armazenarão durante os meses do inverno.
Nesta ocasião, as pessoas usam roupas novas e preparam uma mesa decorativa. Sobre a toalha da mesa são espalhadas folhas de manjerona seca, uma cópia do livro sagrado zoroastriano Avesta, um espelho e um vidrinho de sormeh (pó preto para os olhos), água de rosas, doces, flores, vegetais e frutas da estação.

Na hora do almoço, as famílias fazem suas preces diante do espelho. Uma bebida fresca de frutas é servida e o sormeh é passado nos olhos. Punhados de manjerona, lótus e sementes de ameixas são jogadas no ar, enquanto todos se saúdam.

Yalda: a noite mais longa do ano

Data: 1º de Dey  (20, 21 ou 22 de dezembro) 
 

 

A Yalda, como é popularmente chamada, é a noite mais longa do ano no Hemisfério Norte, ou seja, na véspera do Solstício de Inverno.
A tradição da Shab-e Yalda (em persa “Noite de Nascimento”) ou Shab-e Chelleh (“Noite dos Quarenta dias de inverno”)  remonta aos tempos antigos. Os zoroastrianos acreditavam que era a noite do nascimento de Mitra, divindade persa da luz e da verdade.
Nos dias atuais, embora a Yalda não seja um feriado oficial no Irã, as famílias continuam as tradições, assim como programas de rádio e televisão fazem uma programação especial.
Em muitas partes do país as famílias se reúnem e desfrutam de um delicioso jantar e muitas variedades de frutas e doces especialmente preparados para a ocasião são servidos. A fruta mais típica é a melancia, pois acredita-se que esta garante a saúde e o  bem-estar.
Depois do jantar, as pessoas mais velhas contam histórias. E também, outro passatempo favorito desta noite é a adivinhação da sorte através do livro Divan do poeta  Hafez.

 

Bahmanagân: festival em honra dos animais

Data: 2º de Bahman  (21 ou 22 de janeiro)
 

 

Na tradição zoroastriana, o arcanjo Bahman ou (Vohu Manah, no persa antigo)  é considerado o guardião dos animais. Por isso, o festival de Bahmanagân é lembrado como um dia em que as pessoas evitavam comer carnes e abater os animais. Alguns zoroastrianos continuam a se abster de carne e matar animais durante todo o mês de Bahman.
Atualmente, embora pouco lembrado o moderno festival que também é conhecido como Bahmanruz continua a ser um dia  sagrado para a comunidade zoroastriana no Irã.
Em 2016, ativistas do meio ambiente e dos direitos dos animais no Irã  nomearam o dia 16 de janeiro como o “Dia Nacional dos Animais” por se tratar de uma data próxima ao Bahmanagân e por seu significado especial na cultura persa.

 

Sadeh: festival do fogo

Data: 10 º de  Bahman (29 ou 30 de janeiro) 
 

 

 

 
O Sadeh é um festival que tem raízes nas tradições da antiga Pérsia. O nome Sadeh significa “cem”, que é o número de dias e noites (50 dias) restantes para para a chegada do Noruz. Os rituais desta data consistem em reunir-se em torno de uma grande fogueira e entoar cânticos de ação de graças.
Na religião ancestral do Irã, o zoroastrismo, o fogo simboliza a luz divina. E como essa celebração cai em meados do inverno no Hemisfério norte, o fogo também simboliza a proteção contra o frio e a escuridão. As origens mitológicas deste festivais também estão associadas a descoberta do fogo pelo lendário rei persa Hushang.

Atualmente no Irã, o festival de Sadeh ainda é celebrado em muitas cidades.

Sepandarmazgân: dia de celebrar o amor 

Data: 29º de Bahman (17 ou 18 de fevereiro)
 

 

O Sepandârmazgânfestival que remonta à antiga Pérsia, costumava ser dedicado às mulheres, e neste dia os homens deviam presenteá-las e tratá-las como rainhas. Este dia era dedicado a Sepandarmaz,  um dos anjos guardiães, cujo nome significa “humildade, paciência e pureza” quem abençoa as mães que dão a luz e a colheita dos agricultores.
Atualmente, devido a proximidade entre as datas, muitos celebram o Sepandârmazgân como uma versão iraniana do Valentine’s Day. Nas ruas de várias cidades do Irã, é possível ver lojas decoradas com corações vermelhos, bichinhos de pelúcia gigantes e muitas rosas.  É comum também nessa data, os casais iranianos, especialmente os mais jovens comemorarem com jantares românticos e trocarem presentes entre si, exatamente como no estilo ocidental.
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