Parvin Etesami: uma mulher notável na poesia iraniana

 

Salam amigos, no dia 15 de março, os iranianos celebram o  aniversário de uma das mulheres mais notáveis da história da literatura persa: Parvin Etesami.  No post de hoje vamos conhecer a vida, a obra e o legado desta que foi a primeira mulher a ter seus poemas publicados no Irã na primeira metade do século XX.

 

Vida: a menina que escrevia poesia desde os 8 anos…

Parvin Etesami, cujo nome real era Rakhshandeh, nasceu em 1907, na cidade de Tabriz. Seu pai era o proeminente jornalista e escritor, Mirza Yusef Ashtiani Etesami (Etesamolmolk) e ela tinha quatro irmãos.

Em 1912, ela se mudou de  Tabriz  para Teerã com sua família, onde iniciou os estudos na escola primária. Aprendeu literatura árabe e persa com o pai e desde os seis anos de idade acompanhou reuniões de literatura com a presença de notáveis poetas e escritores da época em sua casa.

Ela compôs seu primeiro poema em estilo clássico, aos oito anos e quando tinha onze anos já conhecia a maioria dos poetas iranianos.

Depois de se formar em 1924, na Iran Bethel, uma escola secundária americana para meninas, Parvin lecionou inglês por dois anos nessa mesma escola. Trabalhou como bibliotecária na Universidade de Teerã e recusou o convite para trabalhar como tutora da rainha na corte de Reza Shah Pahlavi.

Sua primeira coleção de poemas foi publicada em 1935, e ela se tornou a primeira mulher a ter sua obra publicada no Irã.  Em 1936, o Ministério da Educação a homenageou com a Medalha de 3º grau de Arte e Cultura mas ela se recusou a aceitá-la, provavelmente por considerá-la um prêmio de pouca valia.

Parvin Etesami se casou em 1934 com Fazlollah Etesami, um primo de seu pai e mudou-se para Kermanshah, porém se divorciou dois meses depois. Com a morte de seu pai em 1938, Parvin  se sentiu privada de seu apoio amoroso e praticamente cortou seu contato com o mundo exterior.

Ela morreu em 1940 em Teerã de febre tifóide, com apenas 33 anos de idade foi enterrada perto de seu pai em Qom.

Estátua de Parvin Etesami em sua casa em Tabriz | Crédito: IRNA

 

Obra: inspirada pelos grandes poetas clássicos

Parvin tinha apenas sete ou oito anos quando seu talento poético se revelou. Incentivada por seu pai, ela transformou em versos algumas peças literárias que seu pai havia traduzido de fontes ocidentais. Seus primeiros poemas conhecidos, onze composições impressas em edições de 1921-22 da revista mensal de seu pai, Bahār, exibem uma surpreendente maturidade de pensamento.

A primeira edição de seu divan, compreendendo 156 poemas, foi publicada em 1935 com uma introdução do laureado poeta Moḥammad-Taqi Bahar (1886-1951). A segunda edição, editada por seu irmão Abu’l-Fatḥ Etesami, incluindo a introdução de Bahar, foi publicada logo após sua morte em 1941.

A poesia de Parvin segue padrões tradicionais tanto na forma quanto no conteúdo. Na reclusão protetora de sua vida familiar, ela permaneceu inalterada, ou talvez até mesmo inconsciente, das tendências reformistas em curso na poesia persa. Tímida por natureza e isolada pelas normas tradicionais de conduta da época, Parvin nunca expressou seus sentimentos inibidos de amor e saudade.

Anedotas e poemas de conflito compõem a maior parte da obra de Parvin. Ela costumava usar criaturas animadas e inanimadas para expressar seus sentimentos de insatisfação e protesto social sem levantar suspeitas políticas. Por meio dessas figuras alegóricas, ela mostra um espelho da sociedade. Da mesma forma, nesses poemas ela expressa com eloquência seus pensamentos básicos sobre vida e morte, justiça social, ética, educação e a suprema importância do conhecimento.

Parvin é notavelmente silenciosa sobre as grandes mudanças e eventos que ocorreram na Pérsia durante os vinte anos de sua vida criativa (1921-41), sendo a única exceção o decreto de Reza Shah banindo o uso do véu das mulheres em 1935, que ela comemora com aprovação. No entanto, seu divan é um espelho fiel de sua tristeza interior sobre a situação de seu povo como a falta de justiça social, a pobreza, o sofrimento dos velhos, órfãos e doentes.

O conhecimento de Parvin sobre a poesia persa enriqueceu seus poemas narrativos com numerosos empréstimos de grandes poetas clássicos como Sanai, Saadi, Rumi, Khayyam, Hafez e Naser Khosrow. Ela também se inspirou nas fábulas de Esopo e La Fontaine e, nas traduções de seu pai, por exemplo, de Horace Smith e Arthur Brisbane. No entanto, o maior número de suas anedotas são suas criações originais.

Retratos de Parvin Etesami | Crédito: Independent Online

 

Legado: uma mulher a frente de seu tempo

Parvin acreditava que o verdadeiro fundamento de qualquer sociedade estável residia em sua capacidade de educar e capacitar as mulheres.
Seu espírito corajoso e rebelde a impulsionou a largar o emprego estável como bibliotecária em uma renomada universidade em Teerã  para se dedicar a compor poesias que condenavam a ditadura e a hipocrisia na sua época.

 

A lágrima do órfão 

         De todas as ruas e telhados erguiam-se gritos de alegria;
         Naquele dia o rei estava passando pela cidade

 

         Um menino órfão em meio a multidão pergunta
         ‘O que é aquele brilho  no topo de sua coroa?’

 

         Alguém respondeu: isso não cabe a nós saber,
         Mas é uma coisa que não tem preço, isso é claro!

 

        Uma velha aproximou-se, com as costas curvadas,
        Ela disse: ‘isso é o sangue do seu coração e a lágrima do meu olho!’

 

       Sobre as lágrimas do órfão, mantenha seu olhar fixo.

       Até ver de onde vem o brilho da joia.

Tradução livre do inglês baseada em Women NCRI

 

Lugar de Mulher
 
Um lar sem mulher carece de amizade e afeto.
Quando o coração de alguém está frio, a alma está morta.
 
A Providência não decretou em nenhum livro ou discurso.
que a excelência é do homem e o defeito é da mulher.
 
No edifício da criação, a mulher sempre foi o pilar.
Quem pode construir uma casa sem alicerce?
 
Se a mulher não tivesse brilhado como o sol sobre a montanha da vida.
o joalheiro do amor em vão procuraria pedras preciosas na mina. (…)
 
Platão e Sócrates foram grandes porque suas próprias mães
quem os amamentou também foram grandes.
 

Tradução livre do inglês baseada em Charter for Compassion

Pintura representando Parvin Etesami reverenciando o busto do poeta Saadi | Crédito: Ganjoor.net

A poesia e a genialidade de Parvin Etesami são inigualáveis na história da literatura iraniana. Como tesouro nacional do Irã, sua poesia merece ser conhecida mundialmente. Infelizmente ainda não há traduções de poemas desta grande poeta iraniana para o português.

📚 Livros com poemas de Parvin Etesami traduzidos para o inglês: 

 
• Divan of Parvin Etesami: tradução de Paul Smith – New Humanity Books, 2021
• Parvin Etesami The Greatest Female Persian Poet Complete Poemstradução de Paul Smith – New Humanity Books, 2022
• The Book of Parvin Etesami:  tradução de Paul Smith – New Humanity Books, 2021
• Parvin E’tesami: Life & Poetrytradução de Paul Smith – New Humanity Books, 2021
 

🔎Fontes:

Persian Language & Literature: Parvin Etesami| Iran Chamber Society.

Parvin Etesami | Encyclopædia Iranica

Parvin E’tesami, Unmatched Cultural Treasure of Iran | Women NCRI

Acessos em: 15/03/2024

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