Hafez de Shiraz: o poeta que vive na alma do povo do Irã

Salam amigos! Hoje no Irã (12 de outubro), é celebrado o Dia Nacional do Poeta Hafez. A data é no dia 20 do mês de Mehr do calendário persa, que dependendo do ano, corresponde ao dia 11 ou 12 de outubro do nosso calendário.
No post de hoje, vamos conhecer um pouco da incrível trajetória histórica deste poeta místico persa que viveu no século XIV, mas cuja poesia ainda continua viva e pulsante no coração do povo iraniano na atualidade.

 

De onde vem o dom da poesia de Hafez?

Conta-nos a escritora Gertrud Bell uma lenda segundo a qual o jovem Hafez, para conquistar o coração de uma moça, decidiu passar quarenta noites em um lugar situado a quatro milhas de Shiraz, chamado Pir-e Sabz, porque ali aparecia o profeta Khezr e concedia a quem houvesse cumprindo certo ritual, o dom da poesia. No entanto, na 39ª noite, a moça aceitou sua proposta e ele seguiu cumprindo seu ritual, até que o profeta desse a ele a taça que continha a água da imortalidade.
Ainda que esta história seja uma lenda, de fato Hafez pôde através de sua poesia transformar o amor em criações literárias de grande magnitude. Assim como os arabescos das mesquitas iranianas, os versos de Hafez estão tão cheios de movimento que nos envolvem, ostentam um domínio técnico, uma clareza de imagens e uma melodia tais que só podem ser fruto de um criador inspirado e, sobretudo, inteligente e lúdico.
Através dos poemas de Hafez podemos detectar o regozijo de seu autor ao construir esse mundo singular e deslumbrante, como um mosaico formado de peças análogas que aparecem em posições distintas e mudando de contexto, de modo que o olho não tem repouso e é sempre envolvido pela surpresa. Isto explica porque seus poemas nunca envelhecem e que a cada leitura pareçam renovados, e que estejam ainda presentes no mundo persa atual como referência e ponto de apoio, tanto da vida cotidiano – pois a eles se recorrem para consultar o futuro – como na criação artística.
Retrato do poeta Hafez, pintura de Hojjat Shakiba

 

Um gênio em seu tempo e em seu estilo

Shams ud-Din Mohammad Hafez nasceu em Shiraz, capital da província de Fars, por volta do ano de 1320. Haviam transcorrido 60 anos da tomada de Bagdá por Hulagu Khan, um século da morte de Ibn Arabi (1240), 50 anos do falecimento do grande poeta místico Jalal ud-Din Rumi (1273), e alguns menos do desaparecimento de seu concidadão, também eminente lírico, Saadi (1291 ou 1292). Até então, a poesia persa havia alcançado altos patamares, tanto na épica romântica de Nezami, como no Masnavi, no rubai, na qasida de Anvari e o verso gnómico. Hafez, contudo, inaugurou seu próprio território no qual obteve destaque, pois apenas cultivou os gêneros qasida rubai, mas foi ao gênero ghazal, ao qual se entregou e renovou.
Pouco se sabe sobre a vida de Hafez, cujo apelido significa “aquele que sabe de memória o Alcorão”, e a quem também se referiam como “a língua do invisível” e “o intérprete dos segredos”, além de que fora um homem instruído. De origem humilde, começou a trabalhar em padarias, mas logo seu desejo pelo saber o levou às escolas mais famosas de sua cidade natal, onde adquiriu conhecimentos das ciências islâmicas ensinadas na época.
Hafez também se tornou mestre em caligrafia, e acredita-se que trabalhou como copista de poemas, o que não o impediu de desenvolver e aperfeiçoar seu próprio estilo. Por outro lado, em algumas ocasiões solicitou o favor de patronos ricos, sem se tornar submisso a esses, de modo que os tempos de inseguranças e súbitas catástrofes em que viveu não obscureceram sua fama.
 

O auge do poeta em uma época turbulenta

 
Quando Hafez nasceu, Shiraz era parte dos domínios da dinastia Injúida, feldo do mongol Oldjaitu e depois de seu sucessor Abu Said. A morte deste último, em 1335, outorgou ao jovem Hafez, sua primeira experiência de trânsito da glória terrena, pois seu sucessor, Arpa Khan, condenou a morte Mahmud Shah, acontecimento que provocou uma luta pelo poder entre seus quatro filhos, que sucessivamente pereceram de modo violento.
Em 1343, Abu Ishaq, filho mais novo de Mahmud Shah conseguiu estabelecer sua autoridade em Fars. Dez anos depois, seu inimigo, o Mubarez ud-Din, se apoderou de Shiraz e, posteriormente, de Isfahan, mandando matar seu opositor. Seu domínio durou pouco, pois em 1358, durante uma expedição militar foi capturado por seu próprio filho Shah Shoja. Hafez não pediu os favores do austero Mubarez ud-Din, mas em dois de seus poemas fez elogios a seu primeiro ministro Burhan ud-Din Fath Allah.
Durante o reinado de Shah Shoja, o gênio de Hafez viveu seus anos de culminação. Sendo o soberano, um homem mais liberal que seu predecessor, criou as condições para o desenvolvimento de talentos. Ainda que se diga que as relações entre o poeta e seu patrono nem sempre foram cordiais, Hafez compôs para ele diversos poemas, em quatro dos quais o imortalizou.
Em 1387, Tamerlão chegou as portas de Shiraz e tomou a cidade, executando a todos da dinastia governante. No entanto o poeta não chegou a ver o terrível final da estirpe que o havia apoiado. Hafez morreu em 1389 (ou 1390) e hoje está enterrado nos jardins de Musalla, às margens do rio Roknabad, tão celebrado em seus poemas.

O encontro de Hafez e Tamerlão

Das relações de Hafez com os governadores de outros países e de seu suposto encontro com Tamerlão, o invencível herdeiro mongol que mesmo iletrado, viveu cercado de pessoas cultas: matemáticos e geógrafos árabes, astrônomos hindus e historiadores persas. Mais uma vez, Gertrude Bell recorre a tradição, segundo a qual, quando Tamerlão invadiu Shiraz, mandou chamar Hafez e lhe perguntou:
“É você que pela pinta na face de uma turca daria minhas maiores cidades, Samarcanda e Bukhara?” O poeta respondeu: “Sim!”. “Como?!”, exclamou o mongol irritado, “eu conquistei a metade do mundo, saqueei cidades, devastei reinos, construindo cidades magníficas para guardar meus troféus, e tudo isto não é nada para um pequeno persa como você! Pela pinta no rosto de uma turca, você daria minhas duas maiores cidades?”. “Senhor”, respondeu Hafez, “devido a esta generosidade, me curvo diante de vós como um pobre mendigo”. Tamerlão sorriu e ofereceu a Hafez as vestes de um poeta laureado.
Não temos dados históricos que confirmem esta tradição, porém o certo é que a época em que viveu Hafez, o fato de haver presenciado tantas turbulências e a incerteza do destino de reis e príncipes o fez cantar:
«De novo os tempos estão fora do alcance; e de novo pelo vinho e pelo olhar  lânguido da amada desfaleço.”
Ilustração de uma edição persa do Divan de Hafez (1969)

 

🔖(Adaptado de prefácio do livro “Hafez 101-Poemas” (em espanhol), traduzido por Clara Janés e Ahmad Taheri) 


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